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Marcos do desenvolvimento de 0 a 2 anos

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Publicado em 6 de junho de 2026 · 9 min de leitura

Cinco brinquedos de madeira enfileirados sobre um tecido claro

A primeira pergunta que toda mãe e todo pai fazem é se o filho está “normal” pra idade. A resposta honesta é que normalidade no desenvolvimento infantil é uma faixa larga, não um ponto. Um bebê pode sentar com 5 meses ou com 8 e estar bem dentro do esperado. O que importa é o conjunto: a criança progride, ganha habilidades novas, e não regride no que já dominava.

Este texto organiza os marcos motores, de linguagem e socioemocionais de 0 a 2 anos. Onde existe estudo com número, o número está aqui, com a fonte. As idades são medianas e faixas, não prazos. Use como bússola, não como cronômetro.

As janelas normais, segundo a OMS

A referência mais sólida que existe pra isso não é uma tabela de revista: é o WHO Motor Development Study, braço do Multicentre Growth Reference Study da Organização Mundial da Saúde. Foram 816 crianças saudáveis acompanhadas em Gana, Índia, Noruega, Omã e Estados Unidos, com visita mensal no primeiro ano de vida. O resultado foi publicado em 2006 e continua sendo a referência que a OMS mantém hoje: não houve versão mais nova até 2026.

O estudo não publicou uma idade certa pra cada marco. Publicou janelas, do percentil 1 ao percentil 99, ou seja, a faixa onde cabem 98 de cada 100 crianças saudáveis:

Marco motorJanela normal (percentil 1 ao 99)
Sentar sem apoio3,8 a 9,2 meses
Ficar em pé com apoio4,8 a 11,4 meses
Engatinhar de quatro5,2 a 13,5 meses
Andar com apoio5,9 a 13,7 meses
Ficar em pé sozinho6,9 a 16,9 meses
Andar sozinho8,2 a 17,6 meses
WHO Motor Development Study, OMS (2006), 816 crianças em cinco países.

Repare no tamanho dessas faixas. Andar sozinho tem uma janela de mais de nove meses de largura. Quando a vizinha diz que a filha dela andou com 10 meses e a sua ainda não anda com 15, as duas estão dentro da mesma faixa normal, medida pelo mesmo estudo.

Quando o bebê começa a sorrir e a sustentar a cabeça

Nos primeiros três meses, o recém-nascido praticamente só dorme, come e chora. Por volta de 4 a 6 semanas chega o primeiro sorriso social (diferente do sorriso reflexo do sono): a criança fixa o olhar e responde ao rosto da pessoa que cuida. Esse é o primeiro marco que a maioria das famílias percebe com clareza.

No motor, o bebê começa a sustentar a cabeça quando colocado de bruços, ainda que por poucos segundos. Tempo de bruços (tummy time) curto e diário ajuda a desenvolver musculatura cervical e a evitar achatamento do crânio. A orientação da Academia Americana de Pediatria, no material Back to Sleep, Tummy to Play, é começar já no dia em que o bebê chega da maternidade, com 2 a 3 períodos por dia de 3 a 5 minutos, sempre com ele acordado e alguém por perto, chegando a 15 a 30 minutos por dia por volta das 7 semanas.

Quando o bebê começa a sentar

Sentar sem apoio é o marco de janela mais estreita de todos: 3,8 a 9,2 meses no estudo da OMS. É por isso que ele costuma ser o primeiro a acender a luz amarela do pediatra quando não aparece.

Dos 4 aos 6 meses o bebê sustenta a cabeça com firmeza, pega objetos com a mão toda (preensão palmar) e vira de barriga pra cima. Aos 6 meses, muitos sentam com apoio e alguns já sem. Começa o balbucio: “ba-ba-ba”, “da-da-da”. Não tem significado ainda, mas é a base que vai virar palavra.

Aos 6 meses entra também a introdução alimentar, que pais confundem com marco do desenvolvimento mas é decisão clínica baseada em sinais de prontidão: senta com pouco apoio, perdeu o reflexo de protrusão da língua, demonstra interesse pela comida.

Quando o bebê começa a engatinhar

Entre 5,2 e 13,5 meses, pela janela da OMS. E aqui vem o dado que tranquiliza mais pai e mãe do que qualquer conselho: no mesmo estudo, 4,3% das crianças saudáveis nunca engatinharam de quatro. Foram direto pra outra estratégia, arrastando o bumbum ou passando direto pro andar, e se desenvolveram normalmente. Engatinhar é o único dos seis marcos motores que uma parte das crianças simplesmente pula.

Na mesma fase o bebê senta sem apoio, faz pinça com polegar e indicador, primeiro grosseira e depois fina, o que muda completamente a forma como ele manipula objetos pequenos. Imita gestos: tchau, bater palmas.

Por volta de 9 a 10 meses surge a chamada “angústia do estranho”, quando o bebê chora ao ver pessoas que não conhece e se agarra no cuidador principal. Não é regressão nem manha, é um marco socioemocional importante: o cérebro aprendeu a diferenciar quem é da família e quem não é. Costuma passar entre 18 e 24 meses.

Quando o bebê fala a primeira palavra

Perto dos 12 meses, na maioria das crianças. Vale como primeira palavra aquilo que é dito de forma reconhecível e usado pra se referir à coisa: mamãe, papai, tata, água. Falar “papa” batendo na mesa não conta; falar “papa” olhando pro prato conta.

Até 15 ou 16 meses sem a primeira palavra ainda está dentro do esperado, desde que o resto acompanhe: o bebê responde ao próprio nome, olha pra onde você aponta, balbucia com entonação de conversa. Linguagem não é só a palavra que sai, é a intenção de se comunicar que vem antes dela.

Aos 12 meses a maioria também fica em pé com apoio e alguns dão os primeiros passos.

Quando o bebê começa a andar

A janela da OMS pra andar sozinho vai de 8,2 a 17,6 meses, e é a segunda mais larga das seis. Uma criança que não anda com 14 meses não está atrasada: está no meio da faixa. O sinal de alerta real é não andar sozinho passados os 18 meses.

Dos 12 aos 18 meses o bebê sobe escada engatinhando, faz rabiscos quando recebe lápis, e aponta pra coisas que quer e pra coisas que vê e quer mostrar. Esse segundo tipo de apontar, o chamado apontar protodeclarativo, é um dos marcos sociais mais importantes da fase, porque mostra que a criança quer dividir a atenção dela com você.

O vocabulário cresce em saltos, e aos 18 meses não há número redondo que sirva de régua: o que se observa é se a criança fala algumas palavras além de mamãe e papai. Ela entende muito mais do que fala: você pede pra ela pegar o sapato e ela vai, ainda que não consiga falar “sapato”. Compreensão vem antes de produção, sempre.

Quando o bebê começa a falar frases

Entre 18 e 24 meses aparece a junção de duas palavras: “qué água”, “papai cadê”. Aos 24 meses, os marcos de comunicação da American Speech-Language-Hearing Association, atualizados em 2023, esperam que a criança use e entenda pelo menos 50 palavras diferentes e junte duas ou mais palavras.

No motor, a criança corre (com quedas frequentes, e está tudo bem), sobe escada de pé com apoio e conhece partes do corpo quando perguntado. Faz birra, que também é marco do desenvolvimento: é o sinal de que ela tem vontade própria e ainda não tem vocabulário pra negociar.

Socialmente, brinca ao lado de outras crianças mais do que com outras crianças. Isso se chama jogo paralelo e é o esperado nessa idade; brincar junto de verdade costuma chegar lá pros 3 anos.

Quando se preocupar com atraso no desenvolvimento

Aqui vale conhecer o método que o posto de saúde usa, porque ele é público e está impresso na caderneta que você tem em casa. Na consulta, o profissional localiza a faixa etária da criança, verifica os quatro marcos daquela faixa e, se algum faltar, volta pra faixa anterior. Só então classifica.

A classificação tem três resultados, e a diferença entre eles é o que importa. Faltando um ou mais marcos da própria faixa etária, a criança é classificada em alerta para o desenvolvimento, e a conduta é orientar a estimulação e marcar retorno em 30 dias. Faltando um ou mais marcos da faixa anterior, a classificação é provável atraso no desenvolvimento, e aí a conduta é acionar equipe multiprofissional ou serviço especializado. Perímetro cefálico fora da faixa de −2 a +2 escores-z leva direto pra essa segunda classificação.

Repare no que esse desenho quer dizer: não alcançar um marco no mês exato não classifica a criança como atrasada. O que classifica é ficar pra trás em relação à faixa anterior, que é justamente o que uma janela larga permite distinguir.

A lista de sinais de alerta que a caderneta imprime pra família também não é de idade, é de comportamento: criança que não busca interação, que não responde ao olhar e ao som, que demonstra mais interesse por objetos do que por pessoas, que faz gestos repetitivos, que tem dificuldade pra virar de bruços, sustentar a cabeça, engatinhar e andar, ou que demora mais que as outras crianças pra fazer essas ações. E o texto que acompanha diz, com essas palavras, que na maioria das vezes não é nada sério, mas que quanto mais cedo identificado, melhores os resultados.

Tudo isso está na Caderneta da Criança do Ministério da Saúde, que traz os marcos por faixa etária dos 0 aos 36 meses e é conferida em cada consulta de puericultura. A 7ª edição, que é a que circula hoje, inclui também o M-CHAT-R/F, um questionário de rastreio de autismo aplicado entre 16 e 30 meses e respondido pelos pais na consulta.

Fora do Brasil a referência mais citada é a diretriz da Academia Americana de Pediatria, publicada em 2020 e reafirmada em 2024, que recomenda triagem formal com instrumento padronizado nas consultas de 9, 18 e 30 meses, mais rastreio específico de autismo aos 18 e aos 24. O calendário de consultas preventivas que a acompanha foi revisado em dezembro de 2024 e publicado em 2025. É de lá que vêm os questionários que você talvez ouça o pediatra citar, como o ASQ.

Em qualquer um dos dois caminhos, a conduta é a mesma: leve ao pediatra sem rodeio. Diagnóstico precoce de autismo, deficiência intelectual ou atraso de linguagem muda a trajetória da criança. Não é alarmismo, é janela terapêutica.

Saber o que esperar é metade. A outra é o que fazer

Marco é o que você observa; não é tarefa a cumprir. Mas quase toda mãe que chega até aqui faz a pergunta seguinte na mesma hora: e o que eu faço nessa idade, então? Montamos uma ferramenta gratuita de atividades por idade pra isso: você põe a data de nascimento e ela abre as atividades da faixa em que sua filha está, com a página da Caderneta da Criança de onde cada uma saiu. Sem cadastro, e a conta é feita no seu navegador.

Se o que você quer é a lista do mês exato, sem percorrer os dois anos inteiros, ela está em desenvolvimento do bebê mês a mês, com uma página por mês do primeiro ao décimo segundo.

Registrar ajuda mais do que parece

Anotar a data em que sua filha sentou sozinha, falou a primeira palavra com sentido, deu o primeiro passo, parece bobagem no calor do momento e depois você não lembra mais. A caderneta do SUS tem um espaço pra isso, e algumas famílias preferem o registro digital pra ter foto e vídeo anexados na hora. O Minido funciona dessa forma: você toca no marco, anexa o vídeo e a data fica salva sem você precisar abrir agenda nenhuma.

O registro também ajuda no pediatra: quando ele pergunta “quando começou a andar?”, você responde com data, não com chute. Em caso de avaliação de atraso, esses dados viram diagnóstico.

Perguntas frequentes

Quais são as janelas normais dos marcos motores segundo a OMS?

Do percentil 1 ao 99, onde cabem 98 de cada 100 crianças saudáveis: sentar sem apoio de 3,8 a 9,2 meses; ficar em pé com apoio de 4,8 a 11,4; engatinhar de quatro de 5,2 a 13,5; andar com apoio de 5,9 a 13,7; ficar em pé sozinho de 6,9 a 16,9; andar sozinho de 8,2 a 17,6 meses.

Meu filho está normal para a idade?

Normalidade no desenvolvimento infantil é uma faixa larga, não um ponto. Um bebê pode sentar com 5 meses ou com 8 e estar bem dentro do esperado. O que importa é o conjunto: a criança progride, ganha habilidades novas e não regride no que já dominava.

De onde vêm essas idades?

Do WHO Motor Development Study, braço do Multicentre Growth Reference Study da Organização Mundial da Saúde: 816 crianças saudáveis acompanhadas em Gana, Índia, Noruega, Omã e Estados Unidos, com visita mensal no primeiro ano. Publicado em 2006 e ainda a referência que a OMS mantém, sem versão mais nova até 2026.

Por que as faixas são tão largas?

Porque o estudo não publicou uma idade certa para cada marco, e sim janelas do percentil 1 ao 99. Andar sozinho tem janela de mais de nove meses de largura: quando a vizinha diz que a filha andou com 10 meses e a sua ainda não anda com 15, as duas estão dentro da mesma faixa normal, medida pelo mesmo estudo.

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Este texto é informativo e não substitui consulta com pediatra ou equipe de saúde. Ele não passou por revisão médica: o que está aqui é leitura do que dizem os documentos oficiais listados acima. Em caso de dúvida sobre o seu filho, quem responde é quem examina.

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